Há espaço para o Liberalismo na Argentina?

A Argentina, que já foi um dos países mais ricos do mundo no início do século XX, vê sua economia colapsando a cada dia. A título de comparação, o PIB per capita argentino, em 1946, era maior que esses países. Hoje, é o mais pobre da lista.

A situação é tão precária que a pobreza atinge quase metade da população e o peso argentino se desvaloriza cada dia mais, frutos da péssima política monetário adotada pelo país. Já não bastasse os problemas cambiais, há também os fiscais: déficits fiscais são recorrentes à fraca economia argentina.

O número cada vez maior de funcionários públicos faz com que a conta não feche. O Estado é o maior empregador do país e a carga tributária sufoca a iniciativa privada. Tudo isso somado a um programa de bem estar-social insustentável a longo prazo, faz com que a outrora rica Argentina não seja nem a sombra do seu passado glorioso.

Com tantas dificuldades, a pergunta que fica é se a Argentina conseguirá romper com seu sistema econômico altamente intervencionista e criar um ambiente macroeconômico viável para seu crescimento.

Novas propostas não faltam. Ao final deste ano, a Argentina terá eleições presidenciais. Dentre os candidatos que estão no pleito, Javier Gerardo Milei – vencedor das primárias pelo partido La Libertad Avanza – é o candidato que defende uma economia com menos estatismo e regalias para a classe política.

Filho de motorista de ônibus e de uma dona de casa, Milei decidiu seguir a carreira de economista aos 12 anos, em virtude da situação econômica da Argentina naquela época. O cenário de hiperinflação  – semelhante ao que se tem hoje – que assolava a população fez com que Milei sentisse inclinado para o estudo dessa ciência.

Sua carreira política começou em 2021 quando se elegeu deputado. De lá para cá, o discurso de ser um candidato fora do sistema para combater as más práticas da política, vem ganhando entusiastas. Com mais de 30% dos votos, Milei vem liderando as intenções de votos e superando as forças que governaram a Argentina nas últimas décadas. Ou seja, há chances concretas de vitória de Milei.

Rotulado pela imprensa de extremista de direita – a mesma que vê como extremismo tudo que não for de esquerda – o candidato se autodenomia anarcocapitalista. Apreciador das obras de economistas austríacos como Mises e Rothbard, o candidato à presidência conta com um grande apoio dos jovens argentinos.

Milei canalizou o descontentamento dos cidadãos pelos últimos dois anos, dizem alguns analistas. Na apresentação do plano de governo de seu partido, já se vê a ideia central do seu discurso liberal: colocar a culpa no Estado pela atual situação econômica da Argentina.

“EL ESTADO ARGENTINO ES LA PRINCIPAL CAUSA DEL

EMPOBRECIMIENTO DE LOS ARGENTINOS. NO SOLAMENTE POR

SU TAMAÑO ELEFANTIASICO QUE LO TORNA IMPAGABLE SINO

TAMBIEN POR LA MARAÑA DE REGULACIONES QUE SE

DESPRENDEN DE CADA UNA DE LAS OFICINAS ESTATALES QUE

ENTORPECEN EL FUNCIONAMIENTO DE LA ECONOMIA.

 LA FUNCION DEL ESTADO NO ES ENTROMETERSE EN CADA

ASPECTO DE LA VIDA DE LOS INDIVIDUOS (NI PARA BIEN NI PARA

MAL). LA FUNCION DEL ESTADO ES PROTEGER LOS DERECHOS

FUNDAMENTALES DE LA VIDA, LA LIBERTAD Y LA PROPIEDAD DE

LOS INDIVIDUOS”

Todas as propostas de Javier vão ao encontro de um Estado mais limitado. Dentre elas está a de reduzir o número de ministérios de 20 para 8, eliminar todos os privilégios do funcionalismo público, como guarda-costas e motoristas, além de iniciar o processo de privatização de todas as empresas estatais.

As áreas de educação e saúde também sofrerão reformas. Tendo em vista mais liberdade, as escolas poderão escolher seus currículos, métodos e educadores. O programa de vouchers escolares também integra seu plano de ação. Os mesmos princípios que guiam a educação, guiarão também a saúde: descentralização e liberdade de escolha para povo argentino.

As propostas vistas como “mais radicais” pela imprensa no campo da economia são o fechamento do banco central e a dolarização da economia.

Dolarizar a economia é abdicar da moeda nacional e utilizar o Dólar como moeda oficial. O processo já aconteceu no Equador em 2000, devido às fortes crises inflacionárias e econômicas que enfrentava o país nessa época. Como o peso argentino se desvaloriza diariamente, o dólar – moeda forte e estável –  acaba sendo uma alternativa para passar mais confiança ao investidor e, logicamente, fortalecer o comércio local.

Na Argentina já existe uma espécie de dolarização informal causado pela desvalorização cambial. Os argentinos preferem usar outro meio de troca pois sabem que a tendência do peso argentino é a desvalorização.

Se Milei optar em não dolarizar a  economia, é inevitável que ele tome decisões no sentido de desinchar a máquina pública. Sem uma reforma fiscal, não há sentido em se fazer uma reforma monetária.

É impossível prever como alguém vai governar depois de eleito. Pelos discursos entusiastas de Milei, a Argentina pode contar com um legítimo defensor do Liberalismo ocupando o cargo mais alto do poder executivo. Basta saber se o outsider argentino usará Deus, Pátria, Família e Livre Mercado ou Make Argentina Great Again como slogan de sua campanha.

Maxwell Marcos
Graduado em Economia


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