Maconha e a teoria da porta de entrada

Quando comecei a escrever sobre a legalização da maconha aqui no Terraço, a proposta era debater falácias que ouço por aí através de algum respaldo científico. No entanto, constantemente vejo comentários sobre coisas que imaginava estarem no passado, argumentos pouco utilizados em debates rigorosos, mas que seguem ecoando pelas redes sociais. Por conta disso, resolvi falar da maconha como porta de entrada para drogas mais pesadas.

A maconha como primeiro passo para drogas mais pesadas é um argumento antigo, repetido inúmeras vezes, mas desconheço estudos sérios comprovando essa hipótese. Caso alguém os tenha, peço encarecidamente que entre em contato comigo. É estranho pensar nisso, dado que menos de 10% dos usuários de maconha ficam viciados. Claro, isso não encerra o debate, porém, quando comparamos maconha e drogas mais pesadas, como crack e heroína, fica ainda mais difícil observar qualquer correlação. Essas drogas têm consumo até 15 vezes maior que o da maconha, tanto no Brasil, quanto na Europa. Ou seja, somente uma parte mínima dos usuários da cannabis posteriormente ficam viciados em drogas mais pesadas.

Obviamente, não posso encarar tal afirmação como algo conclusivo. Meus colegas, estatísticos e economistas , clamariam por Bayes na mesma hora. Ainda que aparente, pessoalmente, ser um esforço muito grande para refutar pessoas cujas opiniões se baseiam em evidências anedóticas ou apenas alguns dados brutos, sem nenhum tipo de inferência, o mais honesto é buscar por outras fontes.

Como já disse, não encontrei muitos estudos sobre o tema. Parece-me que a maioria das pessoas se apoiam em argumentos como o do parágrafo anterior, já trabalham com a “teoria porta de entrada” enquanto uma tremenda balela ou preferem apontar outros danos da maconha. Para esses dois últimos, recomendo o segundo episódio da série Drauzio Dichava:

Ainda assim, podemos olhar para estudos menores e ainda não replicados (por conta da própria proibição). Num deles, realizado pela Unifesp, dois psiquiatras brasileiros, Dartiu Xavier e Eliseu Labigalini, testaram o uso da cannabis para combater o vício no crack. Contrariando a ideia de que a maconha faria com que as pessoas ficassem mais propensas ao uso do crack, o estudo obteve uma recuperação de quase 70% dos viciados.

Diferentemente do que muitos imaginam, a maconha serviu como uma “arma” contra o crack. Mesmo assim, o estudo anterior, provavelmente, não irá satisfazer a todos, pois observa o caminho do crack à maconha e não o contrário. Contudo, esse estudo já abre espaço para entendermos maconha e drogas mais pesadas como bens substitutos, usando o jargão da teoria econômica, o que faz um contraponto à teoria da porta de entrada.

Mais um estudo, conduzido pela economista Yu-Wei Luke Chu, analisou o efeito da aprovação das leis de maconha medicinal sobre o uso de drogas mais pesadas. Como a aprovação dessas leis causa aumento no uso de maconha, seria esperado que isso levasse ao aumento do uso de drogas mais pesadas. Entretanto, não foi encontrada nenhuma evidência que o consumo de heroína e cocaína tenha aumentado. Na verdade, o que se observou foi algo semelhante ao estudo da Unifesp, queda no uso das drogas mais potentes. Outro estudo semelhante e mais recente, realizado por economistas da Universidade de Connecticut, chegou à considerações similares com evidências que álcool e maconha são bens substitutos. Em outras palavras, o consumo da maconha leva, grosso modo, à queda no consumo da outra droga.

Em suma, não temos evidência de que a maconha cause o aumento no uso de drogas mais potentes, por exemplo, crack, heroína ou cocaína. Os estudos nos mostram, na verdade, que a maconha é uma grande aliada no combate ao vício em outras drogas. Mais um motivo para deixar de ecoar argumentos atrasados, ultrapassados há décadas e que não apenas carecem de evidências, mas são constantemente refutados por estudos científicos. Precisamos tirar o debate da imaginação. Mais fatos, menos opiniões e achismos: a maconha não é porta de entrada para outras drogas!

André Yukio

É matemático pela USP e mestre em economia pela FGV. Possui um blog de estatística e ciência de dados: estatsite.com

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