Como criar uma teoria sem qualquer evidência nos dados: o caso Piketty

Convidados Especiais | Vladimir Teles*

Piketty é o Marx de nosso tempo? Sim, ele é... afinal formula uma teoria absolutamente errada, assim como Marx. [1] (Essa frase, que eu concordo, é na verdade do D. Acemoglu)

Uma vez que a minha principal área de estudo é crescimento e eu ministro aulas de crescimento na graduação e na pós graduação aqui na FGV eu li com cuidado os trabalhos do Piketty (Não apenas o livro, como também os papers).

Também pude ler diversos papers que foram escritos por pessoas como D. Acemoglu, J. Robinson, G. Mankiw, C. Jones, P. Krussel, entre outros, que demonstram vários erros e testam comprovando as falhas dos argumentos do Piketty.

Particularmente fiquei assombrado com a total falta de coerência e rigor do Piketty. A meu ver a sua popularidade deve-se ao aumento de demanda por políticas de redistribuição pós crise de 2008, e não pela qualidade de seu trabalho.

Mas quais são os problemas do seu trabalho? Listo apenas alguns abaixo:

1) Ele tem o mérito de mostrar com novos dados o aumento de desigualdade de renda nos EUA nos últimos anos em uma perspectiva histórica de longo prazo. Ele demonstra que esse aumento se deu por causa de um aumento na desigualdade de salários (i.e. na desigualdade de renda entre trabalhadores). E então ele resolve construir um modelo em que a explicação do aumento da desigualdade é dos retornos entre capital e de trabalho (!??). Ou seja, mesmo se estiver certo, o modelo não explica os dados, afinal a fonte de desigualdade que ele trata não teve aumento nos dados observados.

2) Ele argumenta que usa o modelo de Solow.. o que é mentira. Afinal ele simplesmente ignora a existência de depreciação. Assim, o modelo não encontra equilíbrio e é basicamente por isso que a relação capital-produto começa a explodir.. o que leva à sua conclusão apocalíptica de que a desigualdade aumentará de forma ininterrupta.

3) Ele ignora a lei de rendimentos marginais decrescentes do capital. Essa aberração o leva a prever que neste século os juros vão aumentar de forma permanente enquanto que a taxa de crescimento vai cair (!????). Em outras palavras ele joga a principal premissa do modelo de Solow no lixo!

4) Ele considera a taxa de juros e a taxa de crescimento independentes. Isso viola qualquer equação de Euler que venha de uma escolha intertemporal do consumidor. Ao fazer isso, longe de obter, como ele argumenta, uma lei fundamental do capitalismo, ele ignora a primeira aula de macro de qualquer curso de mestrado em economia.

5) Ele conclui que quanto maior o crescimento, menor será a desigualdade de renda. Porém essa conclusão é oposta ao observado na realidade. Em média, o que ocorre é o oposto. Em geral, períodos de maior crescimento são acompanhados de aumentos na desigualdade.

6) As suas prescrições de política não são apenas baseadas em previsões sem fundamento, e em uma teoria sem rigor. São absolutamente perigosas, podendo afetar negativamente a inovação e o crescimento de longo prazo.

Vladimir Kuhl Teles*

Vice-diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV/EESP). Bolsista de produtividade do CNPq, possui pós-doutorado em economia pela Harvard University, mestrado e doutorado em economia pela Universidade de Brasília e graduação em economia pela Universidade Federal do Ceará. Realiza pesquisas sobre macroeconomia, especialmente nas áreas de crescimento econômico e política monetária.

Notas

[1] Ver mais detalhes em:

http://blogs.wsj.com/economics/2016/08/05/no-empirical-evidence-for-thomas-pikettys-inequality-theory-imf-economist-argues/

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