O Sol renasce: uma análise da geopolítica japonesa Pós-Abe

Uma coisa que qualquer um que leia revistas americanas especializadas em política externa e Ásia Oriental (como Foreign Policy, East Asia Forum, The Diplomat, Foreign Affairs, etc) é que os especialistas estão depositando uma enorme confiança em um “renascimento” geopolítico japonês sob a liderança do novo primeiro-ministro Yoshihide Suga, que tomou posse após a renúncia do ex-primeiro ministro, Shinzo Abe, em 13 de Setembro deste ano. É cada vez mais comum ver eles defendendo que devemos ver o Japão como uma potência mundial subestimada e que Suga pode, por meio da continuação da Abenomics e de um plano de remilitarização, reafirmar o papel japonês dentro do teatro asiático.

Várias razões são colocadas para fundamentar tal esperança. Os especialistas americanos veem no Japão a última barreira “ocidental” contra a expansão da influência chinesa na Ásia. Uma vez que Washington parece ter perdido seu smart power e papel de liderança global ao adotar uma postura semi-isolacionista, cabe cada vez mais a Tokyo preencher esse vazio dentro do contexto asiático da mesma forma que Berlim tem que preencher no contexto europeu. Assim, esperasse que os japoneses tomem iniciativas para a contenção da China; como construção de alianças com os países do Sudeste Asiático, retomar o crescimento econômico do país para mostrar a continuidade da eficiência do modelo democrático para o desenvolvimento econômico e conter os avanços militares chineses.

Suga tem seguido bem essa cartilha até o momento, em verdade. Uma das primeiras medidas diplomáticas tomadas pelo novo primeiro-ministro foi realizar uma viagem pelo Sudeste Asiático para a construção de alianças, que poderiam ser usadas para fortalecer a posição do Japão frente a Pequim. Em um discurso na Universidade de Hanoi, durante sua visita ao Vietnã, Suga se referiu várias vezes ao “estado de direito” e disse que “o estado de direito e a liberdade” estavam sendo ameaçados no Mar do Sul da China, em uma clara referência aos movimentos militares chineses nessas águas. Durante sua visita, o governo japonês firmou uma série de acordos com o Vietnã, entre eles acordos de cooperação militar, para reafirmar a presença japonesa no Sudeste Asiático.

Os interesses japoneses no Mar do Sul da China vão além do Vietnã, na verdade. Sua maior preocupação é com a República da China.  Em Janeiro desse ano, após sua reeleição como presidente de Taiwan, a progressista liberal Tsai Ing-wen reafirmou o compromisso do governo em Taipei de continuar a buscar uma coexistência pacífica entre Taiwan e a China, porém afirmou também que rejeitaria veementemente qualquer forma de integração com seus vizinhos comunistas e que continuaria os projetos de combate à “sinificação” de Taiwan

Tais afirmações tem suas razões dentro do contexto interno e externo de taiwanês. Tsai foi eleita se opondo ao partido conservador Kuomintang, ironicamente cada vez mais pró-Pequim, e afirmando um desejo de uma coexistência pacífica entre as “Duas Chinas”, ao contrário da doutrina da “China Única” defendido pelos membros do Partido Comunista Chinês e do Kuomintang, porém rejeitando a visão de “Uma China, Dois Sistemas” defendida por Pequim. A visão de seu Partido Democrático Progressista é que Taiwan jamais aceitará virar uma Hong Kong sob tutela chinesa e que Taiwan deve, cada vez mais, se desvincular da China e procurar se aproximar do Ocidente como um país único e independente.

Como medida para conter os avanços chineses, Tsai iniciou um projeto para a criação de uma aliança entre países asiáticos pró-ocidentais para “defender a liberdade, segurança, direitos humanos e democracia contra agressões autoritárias”. A vinda da pandemia no começo desse ano serviu bastante bem para sua estratégia. A reputação internacional de Taiwan cresceu bastante durante a Crise de Covid-19 por ter sido o país que melhor lidou com o vírus (tendo apenas 7 mortes até o presente momento) e pelo uso de diplomacia médica, doando máscaras e equipamentos para vários países pelo mundo. Tsai endureceu ainda mais suas políticas de afirmação da independência de Taiwan após o governo chinês dar sinais de querer violar a autonomia de Hong Kong. Para Taipei, aquilo foi um sinal de que os chineses estavam prontos para se livrar de qualquer contra-exemplo ao seu regime. Isso acabou criando uma escala de tensões entre Taiwan e a China que levarama ostilidades militares de ambos os lados.

Ao contrário de Hong Kong, Taiwan é uma questão de defesa para o Japão. Um conflito armado entre China e Taiwan, sobretudo com inteferência americana, poderia jogar os territórios japoneses ao sul, como Okinawa, no meio do embate e, consequentemente, levar o Japão à guerra. Além disso, se a China ganhar o controle da Ilha de Formosa ela ganharia controle estratégico do Mar do Sul da China e suas enormes reservas de gás natural; o que poderia afetar a soberania energética do Japão, que depende de gás importado de Brunei, Malásia e Indonésia. 

Suga se comprometeu também a fortalecer os laços do Japão com o “Quadrilateral Security Dialogue” (QUAD), uma aliança geopolítica anti-China formada por Estados Unidos, Austrália, Japão e Índia. Suga sinalizou seu compormetimento com a aliança de duas formas bastante rígidas. Primeiramente, ele tem apoiado abertamente as pretenções indianas no conflito entre Índia e China pelo controle da Caxemira. Os conflitos geopolíticos entre Pequim e Nova Delhi pelo controle da região de Ladakh/ Tibete do Sul tem  feito o governo nacionalista do primeiro-ministro Narendra Modi aumentar seus laços com os Estados Unidos e seus aliados e tomar uma série de políticas de retaliação contra a China; como banir aplicativos chineses e impedir investimentos da Huawei em tecnologias 5G no país; e o Japão tem ajudado por meio de exercícios navais conjuntos com a marinha indiana e de apoio à “democracia indiana”. Segundo, Suga apontou como ministro da defesa o político conservador Nobuo Kishi, conhecido por suas simpatias para com o governo de Taiwan

Outra medida foi a continuidade dos planos de remilitarização, começados por seu antecessor Shinzo Abe. Recentemente, o premier participou do lançamento do novo submarino Taigei da marinha japonesa, fabricado pela Mitsubishi.

Em geral, as medidas do novo primeiro-ministro são vistas com bons olhos pelo público japonês. Existe um forte sentimento anti-China no Japão atualmente. As razões para o desgosto japonês para com seus vizinhos continentais são vários. Muitos japoneses crêem que a China é culpada pela pandemia de Covid-19, por ter reprimido a divulgação da doença meses antes de seu surto global. Muito viram a intervenção chinesa na autonomia de Hong Kong como uma atentado contra seus valores democráticos e uma crescente ameaça de que a China poderia vir a interferir em Taiwan, um território bastante ligado ao Japão tanto por laços coloniais como culturais e econômicos. E, além disso, soma-se a isso que a pandemia, vista como culpa dos chineses, afetou os Jogos Olímpicos de Tokyo de 2020 e a disputa histórica entre Pequim e Tokyo pelo controle das Ilhas Senkaku, no Mar do Leste da China.

Contudo, o renascimento geopolítico do Japão sob Yoshihide Suga terá que ser sustentado por uma agenda de reformas. Ainda que Suga goste de se promover como uma “continuação” de Shinzo Abe, isso não será suficiente para manter a posição do Japão no cenário internacional. Durante o governo de Abe, de 2013 a 2019, o crescimento anual do PIB foi em média apenas de 1%, em maior parte por incrementos de capital (obras de infraestrutura) e trabalho (ampla entrada de mulheres japonesas no mercado de trabalho). 

Taxa de Crescimento do PIB nominal japonês de 2011-2020. Fonte: Trading Economics.

Além disso, apesar de ter sinalizado uma agenda de reformas estruturais, não houve grandes ganhos de produtividade durante o governo de Shinzo Abe. Apesar de ser bastante midiática a eficiência de seu povo, o Japão apresenta a menor taxa de produtividade do trabalho do G7, sendo menor até que a média da OCDE. 

Produtividade do Trabalho nos Países da OCDE. Fonte: Nippon.Como consequência, o Japão vem apresentando taxas estagnadas de crescimento real dos salários dos trabalhadores nos últimos dez anos. 

Taxa de Crescimento dos Salários Reais no Japão e Coréia do Sul no período 2010-2020. Fonte: Trading Economics.

Soma-se a esse problema econômico que o Japão vem experimentando um grave problema demográfico. Sua população vem envelhecendo rapidamente, não sendo compensada por uma taxa de natalidade cada vez mais declinante. Isso tem preocupado o governo japonês, pois uma população cada vez mais velha, com uma proporção de jovens trabalhadores ativos cada vez menor, é a receita certa para um bomba previdenciária. O Japão apresenta a maior taxa de dependência de idosos com relação ao sistema previdenciário público do mundo.

Despesa pública com % do PIB com gastos previdenciários e Taxa de Dependência por País. Fonte: The Economist.

Assim, o Sol renasce no Oriente. O Japão parece voltar a ter um destaque ativo na geopolítica mundial, para além do lado econômico, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial. Contudo, é necessário fazer o dever de casa antes de qualquer coisa.

 

Sávio Coelho

Graduando em ciências econômicas na Universidade de Fortaleza (Unifor), gosta de estudar história econômica, com foco em história fiscal e monetária, e é simpatizante da Mainline Economics.
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