Anekdoty: as piadas da URSS que podiam matar você

'Uma delegação da Georgia visita Stalin. Eles vão em seu escritório, depois vão embora. Logo que saem, o ditador começar a procurar seu cachimbo. Abre gavetas, armários, e nada. Então ele grita para o chefe da polícia secreta:
‘Perdi meu cachimbo, vá até a delegação e veja se alguém ficou com ele.’

Algumas horas depois, Stalin encontra, sem querer, seu cachimbo em uma das gavetas e grita novamente para o chefe da polícia secreta:
‘Tudo bem, achei meu cachimbo!’

Tarde demais’, responde o chefe, entrando na sala.
‘Metade da delegação confessou ter pego e a outra metade morreu durante o interrogatório.
’'

As anekdoty eram piadas que os cidadãos dos países sob o domínio soviético faziam sobre o próprio regime ou situações que o comunismo ali aplicado lhes faziam passar.

Essas piadas eram a maioria das vezes repassadas do modo mais discreto possível de uns com os outros, a fim de evitar represálias da Polícia Secreta Soviética, a qual, considerando as piadas como uma “Propaganda Anticomunista”, mantiveram censura e represálias absurdas, características marcantes dos regimes comunistas, sobre tais expressões de dissidência política.

Na URSS, uma mulher vai a uma concessionária comprar um carro e o vendedor diz: “Tudo bem, em 10 anos você pode vir pegar seu carro”. “De manhã ou à tarde?”, questiona a mulher. “Que diferença faz?”, pergunta o vendedor. “O encanador vem de manhã”, responde a mulher.

O documentário Hammer & Tickle: The Communist Joke Book, feito em 2006 por Ben Lewis, que viajou por dois anos diversos países da antiga Cortina de Ferro para mostrar a história de como as piadas serviram de vazão para a expressão do povo sobre os desejos de reforma e liberdade em seus países.

Tudo tornou-se manipulado pelo Estado. Havia mais coisas sobre as quais fazer piada porque havia muita intervenção, em tudo. Para que o humor fosse digno de análise do estado era o fato de que abrangia todos os aspectos da vida cotidiana. Da compra de pão às decisões dos líderes, tudo virava piada.

'Stalin lê seu relatório ao Congresso do Partido. De repente, alguém espirra. “Quem espirrou?” Silêncio. “A primeira linha! De pé! Atire!” Eles são fuzilados, e ele pergunta novamente: “Quem espirrou, camaradas?” Nenhuma resposta. “Segunda fila! De pé! Atire!” E estes são fuzilados também. “Bem, quem espirrou?” Por fim um grito soluçante ressoa no salão do Congresso, “Foi eu!” Stalin diz: “Saúde, camarada!”'

O estado era tudo. Então contava-se piadas sobre tudo. Os cidadãos consideravam as piadas um ato de rebeldia contra a opressão e ausência de liberdade. A manipulação e comoção do humor era visto de maneira tão poderosa que, segundo Lewis, muitas pessoas que viveram no bloco soviético afirmaram que o humor foi o que realmente havia derrubado o comunismo.

Por disseminar essas piadas, inúmeras pessoas foram presas ou até enviadas para campos de concentração.
O órgão responsável por investigar e prender os piadistas era o próprio Serviço Secreto. O documentário afirma que houve períodos em que um número significativo de pessoas foram condenadas pelas piadas. Ainda não se sabe quantas dessas acusações diziam respeito especificamente a piadas, mas é possível notar o quanto era perigoso e o quanto isso incomodavam o Partido Comunista.

No Brasil as piadas anticomunistas também são bem famosas. A versão mais famosa que está por aqui é a reconhecida Reversal Russa.
A Reversal Russa foi criada pelo humorista ucraniano Yakov Smirnoff, que nasceu e cresceu quando a Ucrânia era parte da União Soviética e depois mudou-se para os Estados Unidos.

Nestas piadas, o sujeito e o objeto direto da frase são invertidos, com intenção cômica e crítica ao regime comunista:

'Na América, você sempre acha um partido.
Na União Soviética, o partido sempre acha você.'

Possivelmente o maior propagador de piadas anticomunismo e União Soviética sequer tenha nascido no leste europeu.
Ronald Reagan, um dos mais importantes presidentes do Estados Unidos, criador do plano econômico Reaganomics e autor do termo “Império do Mal” para referir-se à União Soviética, era conhecido pelo seu bom humor e pelas suas diversas piadas sobre comunismo no fim de seus discursos.
Há histórias de que sequer Mikhail Gorbachev ficou de fora de ouvir pessoalmente uma de suas piadas. Você pode vê-lo fazer uma piada após um de seus discursos aqui.

As piadas do povo na URSS, por mais infames que sejam, foram por muito tempo o único modo de manter o espirito de oposição e o anseio pela liberdade de expressão vivos nos momentos mais opressões do regime.

Essas piadas mantiveram o senso crítico e a percepção da população pelas mudanças políticas e sociais que aconteciam a sua volta, por mais repressor que fosse o sistema.
Até o momento em que piadas não foram o bastante e seus indivíduos buscaram agir a favor de sua liberdade e de suas nações.

Michael Souza
Graduado em Ciência da Computação na Universidade do Grande ABC. Faz parte do Clube de Liberdade Caiapós, grupo de estudos de Economia e Liberalismo da USP de Ribeirão Preto.

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