Brasil, BRICS e o xadrez geopolítico moderno

Recentemente tivemos a XI Cúpula do BRICS em Brasília e acredito que seja natural questionarmos a posição do Brasil e dos países membros desse grupo no cenário político internacional. O teatro global de relações entre os países vem entrando em um processo de redistribuição de poder e esse processo está avançando cada vez mais rápido.

No período pós-Segunda Guerra, entre 1946 e 1989, vivenciamos o jogo de poder da Guerra Fria: disputas de influência e armamentistas entre Estados Unidos e União Soviética, período que vem ao fim com a queda do Muro de Berlim no fim de 1989.

A partir disso, entramos no período da hegemonia do poder americano e relativa paz global. Claro, tivemos eventos bélicos de relativa magnitude após o fim da Guerra Fria, como a Guerra da Bósnia ou os conflitos no Oriente Médio, mas nada de real influência global ou que perturbasse a ordem vigente.

Esse período de relativa paz e total hegemonia americana se encerra com a anexação da Crimeia pela Rússia de Vladimir Putin em 2014, numa demonstração clara de perturbação da ordem global pré-estabelecida e uma evidente afronta ao poder da OTAN para proteger União Europeia e Ocidente. Trata-se do evento que a União Europeia mais teme desde a queda da Cortina de Ferro, uma Rússia militarmente poderosa à sua fronteira e ameaçando a integridade de outras nações. Destaca-se também a mudança de postura dos últimos governos americanos, de Obama e Trump, em se importar menos com o poder de influência global dos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo em que tudo isso acontece, a China vem conquistando cada vez mais influência global, tanto política quanto econômica, e desenvolvendo um exército e uma marinha muito poderosos e capazes de dar mais trabalho que o Japão, por exemplo, na Segunda Guerra Mundial. Além do crescimento do poder e o sucesso da economia chinesa perturbarem ainda mais a ordem global e a hegemonia americana, contesta, invariavelmente, os valores Ocidentais e até mesmo os conceitos de democracia e liberdade, temas explorados no artigo sobre a Armadilha de Tucídides.

A China vem estendendo seu poder e influência pelo mundo através dos seus projetos de modernização e infraestrutura, muito presentes na própria Ásia, mas também na África e na América Latina. Esse projeto de crescimento da influência e presença é um dos pontos centrais das políticas internacionais do governo chinês.

Em outro gigante asiático, temos o poder de mercado e potencial de crescimento imenso da Índia, além da sua crescente influência em tecnologia e capacidade de consumo colocam o país em patamar de também revisionista da ordem de influência e de estratégia global. Com a chance de ser uma nova China em capacidade de crescimento nos próximos anos, com seus mais de um bilhão de habitantes, pela proximidade geográfica e pela influencia da região, o país poderá entrar em conflito com os interesses locais com a China, em uma possível local Armadilha de Tucídides, quando a China perceber sua influência e poder tanto econômico quanto bélico em seus parceiros próximos pela Ásia e Pacífico.

África do Sul e Brasil também deveriam ser os países mais influentes em suas regiões, mas vêm passando por sucessivos casos de corrupção, diversos problemas administrativos e econômicos nas últimas décadas. Ambos os países, para crescerem seu grau de influência em suas regiões, terão que lidar com o crescente investimento e presença da China, em que nesse quesito se torna competidora.

Na América Latina, nas recentes crises na Bolívia e na Venezuela, a própria Rússia demonstrou possuir um grau de influência muito maior no que acontece que o Brasil. Esses outros dois países menos poderosos internacionalmente do BRICS, Brasil e Africa do Sul, precisarão resolver primeiro seus problemas domésticos, tanto administrativos quanto econômicos, para somente depois disso passar a tomar parte no cenário de disputa por poder internacional, tanto em escala regional quanto global.

O Brasil tem demonstrado interesse em encontrar protagonismo no cenário internacional, tentando exercer sua influência nos acontecimentos de importância na América Latina e em outros continentes, por enquanto, sem muito retorno. Contudo, cabe notar que acabou esse período de 25 anos de calmaria, entre 1989 e 2014, e que a ordem internacional está sendo revista, questionada e desafiada. É o primeiro passo para tentar desenvolver esse tipo de poder no xadrez geopolítico moderno, mas que não terá muita eficácia se nossos problemas e incapacidades internas não forem resolvidos primeiro.

Michael Sousa

MBA em Gestão Estratégica pela FEA-RP USP, é graduado em Ciência da Computação e especialista em gestão por processos e Six Sigma. Possui extensão em Estatística Aplicada pelo Ibmec, em Gestão de Custos pela PUC-RS, em Finanças por Yale e em Estratégia pela Polimi - Politecnico di Milano. Trabalha com Gestão de Projetos, Análise de Dados e Inteligência de Mercado. Costuma passar seu tempo livre fazendo projeções estatísticas, estudando o colapso político e econômico das nações ou lendo vagos e curiosos tomos de ciências ancestrais.
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